Doutorado em Poéticas Visuais na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, com orientação de Mario Ramiro, e defendido a 13 de março de 2025.
O Brasil, mais do que uma terra, é uma narrativa. E toda narrativa, antes de ser verdade, é invenção. Esta tese desmonta o mito fundador da nação, peça por peça, imagem por imagem, palavra por palavra. Tal como num roteiro de cinema ou numa espécie de colagem, percorremos do século XVI ao século XXI, de forma cronológica ou não linear, observando como a história foi contada, recontada e aprisionada em quadros, páginas e películas. O mito diz que fomos descobertos. Mas toda descoberta pressupõe um olhar que vê sem ser visto, uma chegada que se impõe sobre aquilo que já existia. A carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, abre a cena deste teatro colonial, e os seus ecos moldam pinturas, discursos e celebrações. Mas e se, ao invés de um encontro, tivéssemos um desencontro? E se a história fosse um jogo de espelhos, onde a imagem se repete, mas nunca nos mostra o avesso? Entre 1840 e 1937, os romances de José de Alencar, as pinturas de Oscar Pereira da Silva e os discursos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro esculpem uma nação idealizada, onde indígenas e negros são reduzidos a símbolos e apagados da construção do país. Um mito que se renova e se ajusta, mas mantém sempre as mesmas mãos no comando da narrativa. Mas a história não se fecha. Em 2000, com o V Centenário do Descobrimento e a exposição Brasil +500: Mostra do Redescobrimento, os gestos de outrora ainda se repetem. A memória oficial veste-se de modernidade, mas os seus alicerces são antigos. Ainda há a cruz, ainda há as armas, ainda há a pena que escreve sobre corpos silenciados. E é aí que entra a sandice. Como em Erasmo de Roterdão, a loucura é também lucidez. Aqui, não é a perda da razão, mas o reconhecimento de que a história que nos contaram é uma farsa, um teatro onde as personagens mudam, mas o roteiro persiste. Para explorar essa fabulação, a pesquisa desdobrase também em imagens: a série fotográfica Sandice Erasma (2008-2024), o filme Labirinto (2022) e as videoinstalações Duas diferentes distâncias (2023) e Pedestre razão lusitana (2024). Obras que tensionam a iconografia histórica e propõem novas leituras do passado. Porque talvez, para compreender o Brasil, seja preciso desaprendê-lo.